Colóquio
João Ferreira de Almeida
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DESIGUALDADES E PERCEPÇÃO DAS DESIGUALDADES

Um longo caminho histórico de afirmação prática de direitos foi sempre acompanhado e frequentemente precedido por debates filosóficos e teóricos em torno da igualdade e dos seus pontos de aplicação. A uma tendência para “naturalizar” as desigualdades foram-se opondo, com diversas variantes, os que entendem indispensável reduzi-las, sobretudo em nome da equidade, sem que isso signifique um qualquer intento de suprimir diferenças entre os indivíduos.

Olhar para alguns efeitos das desigualdades leva ao entendimento empiricamente sustentado de que existem correlações sistemáticas entre aquelas e a incidência de problemas sociais. Alguns exemplos, em particular nas questões da confiança interpessoal e da educação, parecem confirmar a ideia de que redução das desigualdades e mitigação dos problemas sociais andam a par.

Na modernidade tardia, os processos de individualização e de reflexividade alargada tendem a conferir peso crescente, nas dinâmicas sociais, às dimensões simbólicas. Preconceitos como o sexismo ou a xenofobia, eles próprios contribuindo para desigualdades graves, convocam pesquisas cuidadosas. E vai-se igualmente tendo cada vez mais em conta, por outro lado, o bem-estar subjectivo dos cidadãos, como indicador de qualidade de vida. Também aí se reflectem os níveis de igualdade/desigualdade social.

Finalmente, é bem claro que se a igualdade faz bem, genericamente, a cada sociedade, os efeitos das desigualdades afectam diferencialmente a respectiva população. A análise de classes, que já parte da distribuição desigual de recursos disponíveis, contribui para avaliar a repercussão e a reprodução também desiguais dos problemas existentes nos diferentes grupos.

Em termos programáticos, fará sentido desenvolver pesquisa sobre uma epidemiologia das desvantagens, já que existem efeitos negativos de contágio entre as várias componentes dos recursos de que podem dispor as classes e grupos desfavorecidos. A acumulação de desvantagens conduz a situações mais graves de “terceiros mundos interiores” nos chamados países ricos, caracterizadoras de formas de exclusão social. A pesquisa deverá igualmente ter em conta a vitalidade relativa de espaços no conjunto dos territórios nacionais, visto que as organizações sócio-espaciais são, elas também, produtoras de oportunidades e de obstáculos.

 

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17.11.2010